quarta-feira, 13 de abril de 2011

Espanhol no Brasil

A presença da língua espanhola no Brasil está caracterizada pelo seu modo de distribuição no território brasileiro. Por um lado, o espanhol como língua de contato; por outro lado, o espanhol como língua estrangeira. Nas zonas de fronteira com os países sul-americanos, o espanhol é a nossa língua de maior contato. Nessas zonas a extensão e a intensidade dos contatos está definida pelas características geográficas, econômicas, sociais e culturais. Nas chamadas zonas de fronteira seca, em que não há nenhuma barreira geográfica natural, o espanhol é uma segunda língua, como por exemplo, na fronteira Brasil-Uruguai, onde as cidades se correspondem, em ambos lados da fronteira, por exemplo, SantAnnna do Livramento – Rivera. Em outras zonas fronteiriças do Brasil com os demais países da sul-americanos, o Espanhol, embora tendo uma presença menor em território brasileiro, é mais uma língua em convivência com o português, além das línguas indígenas com as quais tanto a língua portuguesa como a língua espanhola tem contato em ambos lados das fronteiras. Embora não haja nenhuma descrição lingüística que comprove a existência de um bilingüismo nestas regiões, o espanhol é uma língua praticada e compreendida, sobretudo, pela necessidade de comunicação e inter-relação entre os habitantes destas regiões de fronteira. A situação da língua espanhola no Brasil como língua estrangeira cresceu e ganhou força no Brasil, a partir da aprovação no senado da lei nº 4.004 de 1993 que determina a obrigatoriedade do ensino do Espanhol no ensino médio e facultativo no ensino fundamental. Além disto, posterior à implementação do Mercosul, o Espanhol tornou-se também uma língua tão importante quanto o inglês no âmbito dos negócios e do comércio no Brasil. Em razão destes fatores, o Brasil é o lugar onde o crescimento do interesse pela aprendizagem da língua foi o mais significativo nas últimas décadas do séc XX e início deste século.

A NOVA RELAÇÃO ENTRE O PORTUGUÊS E O ESPANHOL A PARTIR DE UMA ANÁLISE EM JORNAIS DE URUGUAIANA

A FRONTEIRA HOJE: A NOVA RELAÇÃO ENTRE O PORTUGUÊS E O ESPANHOL A PARTIR DE UMA ANÁLISE EM JORNAIS DE URUGUAIANA (PROJETO DE PESQUISA VINCULADO AO ENTRELÍNGUAS- DEPARTAMENTO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS MODERNAS- UFSM)

DAIANA MARQUES SABROZA 1, ELIANA ROSA STURZA 2

Introdução

A relação entre a língua portuguesa e a língua espanhola torna-se cada vez mais estreita, seja por razões políticas, sócio-econômicas, históricas ou geográficas. Os estudos nas regiões de fronteira mostram que hoje esta relação entre as duas línguas “não é mais de interferência ou de transparência absoluta, mas de continuidade enunciativa”. (STURZA, 2009, p. 210) Segundo Sturza (2009) esta continuidade reproduz na língua a proximidade sócio-cultural do espaço fronteiriço, neste caso, a fronteira é vista como um lugar à parte, um espaço de conteúdos próprios (BEHARES, 1996, p. 26). Esta relação de proximidade entre as duas línguas se torna ainda mais evidente quando analisada em sua materialidade. Assim, o presente trabalho apresenta uma breve análise de textos em espanhol do início do século xx – do ano de1905/1906 e do ano de 2010, jornais da cidade de Uruguaiana, fronteira entre Brasil e Argentina.

Objetivos

Contrastar os modos de circulação da língua espanhola em textos de jornais publicados no início do século XX e em textos atuais, para que se analise como a relação entre o espanhol e o português se materializava no antigo jornal da cidade e como se materializa hoje, isto é, verificar como o espanhol ocupa atualmente espaços de circulação no uso da língua portuguesa nas regiões de fronteira.

Metodologia

O corpus do trabalho é constituído de três textos publicados em espanhol no jornal A Notícia, de Uruguaiana, no início do século XX e cinco textos publicados também em língua espanhola, no Jornal de Uruguaiana, neste ano de 2010. Estes são analisados a fim de verificar-se como está representada nos textos a presença do espanhol, nessas diferentes épocas, em diferentes condições sócio-históricas. A análise é baseada no trabalho de Sturza e Fernandes (2009), A Fronteira como novo lugar de representação do espanhol no Brasil.

Resultados

Contrastando e analisando os textos selecionados, há diferenças entre o antigo jornal da cidade e o atual: Os textos do jornal A Notícia são propagandas e anúncios, ou seja, textualidades que pertencem ao universo econômico e que demonstram a importância do comércio na região fronteiriça, no início do século XX. Já os textos publicados atualmente, no Jornal de Uruguaiana são mais diversificados, são notícias sobre alimentação, saúde e propagandas. Além disso, estão dispostos em uma página inteira destinada à cidade vizinha, Paso de Los Libres, Argentina. Isto nos leva a considerar que a relação hoje entre o espanhol e o português, na fronteira, não se limita estritamente à negociação comercial, é uma relação mais integradora, uma vez que o jornal ilustra como a língua não é apenas um instrumento para comunicar, anunciar. É a língua do outro, do vizinho, é a língua que faz fronteira e que tem, portanto, leitores possíveis, indicando uma integração menos separada pelas nacionalidades.

Conclusão

Portanto, a língua espanhola já se fazia presente no espaço de circulação da língua portuguesa no início do século, porém em um contexto distinto de hoje. Segundo Sturza (2009), as atividades econômicas no início do século XX eram intensas, grande parte da economia platina baseava-se na importação e exportação de mercadorias nos portos fluviais. Sendo assim, os textos publicados no antigo jornal de Uruguaiana em espanhol não podiam representar outra coisa, senão esta relação econômica estabelecida entre o português e o espanhol na fronteira. Porém hoje, a relação entre as línguas na fronteira vai muito além do aspecto econômico, é mais integradora, o que possibilita definir a fronteira, como afirma Camblong (2006) em: “Un mundo dinámico em que se manejan varias monedas, distintas lenguas, más de una documentación personal, se compra y se vende, se llora y se ríe, se ama y se odia en movimientos contínuos de um lado al otro.” (Camblong 2006, apud Sturza, 2009, p.211)  

INFLUÊNCIA DO PORTUGUÊS SOBRE O SEGMENTO /S/ DO ESPANHOL EM ZONAS DE FRONTEIRA

INFLUÊNCIA DO PORTUGUÊS SOBRE O SEGMENTO /S/ DO ESPANHOL
EM ZONAS DE FRONTEIRA.
Luciana Rodrigues Alves Ribeiro (FURG,UFPEL)
Jorge Espiga (UCPEL,CEFET/RS)
Resumo
Este trabalho, em uma abordagem qualitativa, pretende estudar a possível
influência do português sobre o espanhol na produção do segmento /s/ em
zonas de contato entre as duas línguas. Tem como base gravações feitas em
uma zona onde há contato entre as duas línguas (Sant’Ana do Livramento -
Rivera).Idade, escolaridade, local de nascimento e níveis de contato com a
língua portuguesa foram os critérios utilizados para selecionar os informantes a
serem entrevistados. O estudo pretende mostrar que nessa zona de fronteira a
evolução da língua espanhola na produção do segmento /s/ não apresenta
apenas as realizações que se observam em zonas onde não haja este contato.
Este estudo toma como referente a variante rio-platense (compreendida por
Buenos Aires e Montevidéu) já que é de onde vem a maior influencia na
realização dos fonemas do norte do Uruguai.
Palavras-chave:
sociolingüística.
línguas em contato, dialetologia, variação fonético-fonológica,
1. Introdução:
Este estudo terá uma abordagem inicial qualitativa, que posteriormente será
aprofundada com respaldos quantitativos.Neste primeiro momento, duas
questões foram levadas em conta: a contextualização sócio-histórica e
geográfica e a variação especificamente fonética do espanhol fronteiriço.
A origem do contato entre o português e o espanhol, na zona de fronteira entre
Brasil e Uruguai, é conseqüência da disputa dos Reinos espanhol e português
pelas terras do Novo Mundo desde o século XXVI. Nessa época, não existia
um controle efetivo do trânsito de pessoas ou coisas, isso só ocorrerá após a
independência do Uruguai. Então começaram as demarcações que definiram
que território pertenceria a cada país (Elizaincín,1993).
Em 1855 , quando as demarcações atingiram a região onde estão situadas
atualmente as cidades de Sant’Ana do Livramento (Brasil) e Rivera (Uruguai),
ali só existia um povoado brasileiro que se estendia ao longo da coxilha. O
povoado de Livramento foi elevado à categoria de vila em 1857. Em 1860, os
uruguaios começaram a construir um povoado em frente à recém criada vila
brasileira, que recebeu o nome de Ceballos e posteriormente recebendo o
nome de Rivera.
Elizaincín (2001) afirma que quando a lingüística estuda o espanhol americano
para ver como influenciaram as diversas línguas com as quais teve contato, o
português tem um lugar preferencial, quase determinante na hora de estudarlo.
A interferência consiste geralmente na influência de uma língua sobre a outra
quando estão em contato e altera o natural de ser delas. A interferência,
segundo a concepção de Weinreich (1963,
em 6 níveis, mas o que será focalizado neste estudo será apenas o fonético.
Mais especificamente, a interferência de um sistema fônico sobre o outro.
apud Semino 2007), pode ocorrer
2. Objetivo
Ao levar em conta que o português e o espanhol estão em contato nas cidades
de Sant’Ana do Livramento e Rivera, temos então, uma situação favorável à
interferência fônica do segmento /s/, que é o objeto deste estudo, pois, tem
diversas realizações na variante rio-platense. Em efeito, este estudo tem por
objeto mostrar as realizações fônicas de /s/ que são distintas das realizações
rio-platenses que não estão em zona de fronteira com o Brasil e que aparecem
na amostra da cidade de Rivera.
Caracterizar os alofones de /s/ que aparecem na variante rioplatense e
comparar-los às realizações fônicas da amostra da cidade de Rivera.
3. Revisão bibliográfica
3.1 .
Realizações de /s/ na variante rio-platense
Em Quilis (1981) e María Andión Herrero(2004) encontramos os alofones de /s/
dessa variante:
[s] fricativa linguoalveolar surda, em sua realização plena ante vocal. Exemplo:
saber [sa’
[h] fricativa faríngea ou laríngea surda, em sua realização aspirada.Exemplo:
esto [‘ehto];
[x] fricativa velar surda, em sua realização velarizada. Exemplo:mosca
[‘moxka];
[
• Realização plena [s] em ataque em posição pré vocálica, em coda em posição
final ante vocal.
• Realização aspirada [h] em posição final antes de vogal e em posição pré
consoante interna ou final.
• Realização velarizada [x] em posição pré-consoante interna ou final quando
seguidas dos fonemas velares [k] y [g].
e];] elisão ou perda.
3.2.
variante rioplatense.
Realizações de /s/ na amostra de Rivera diferentes das encontradas na
Em Quilis (2000) e Callou e Yvonne Leite (1994) encontramos as variantes da
amostra:
[s] fricativa: inguoalveolar surda, em sua realizaçãp plena ante consoante.
Exemplo:
[‘basta];
[z] fricativa linguoalveolar sonora, em sua realização sonorizada. Exemplo
[‘dezde];
Quilis explica que [z] é um alofone de /s/ e não permite diferenciar significados
como no português.
• Realização plena [s] em posição pré consoante interna ou final.
• Realização sonorizada [z] em posição final ante vogal ou ataque em posição
prevocálica.
3.3.
Contextos de uso
Lipski (2006) caracteriza a realização de /s/ como aspirada e sugere que o som
de sibilante – realização plena- só aparece na fala cuidada ou artificial. Afirma
que a elisão aparece apenas nas classes sociais mais baixas e que no dialeto
fronteiriço a realização de /s/ é variável.
María Andión Herrero (2004) sustenta que a aspiração de /s/ está generalizada
na Argentina e Uruguai. As outras realizações desse fonema também
encontradas nesses dois paises são a velarização e a elisão.
Antonio Quilis (2000) afirma que o segmente /s/, quando se encontra em
posição posnuclear não se pronuncia como /s/ porque há a aspiração [h]. Esse
fenômeno está muito difundido em algumas regiões americanas.
Mircea Doru-Brânza y Joan Llinas Suau (2003) defendem que no espanhol
rioplatense o segmento /s/ em posição interna ou final, ante consoante, estão
em um contexto favorável à aspiração ou elisão.Dizem que em silaba travada o
segmento /s/ é produzido como uma fricativa laríngea [h].
Maria Vaquero de Ramires (2003) aponta que no espanhol de Buenos Aires há
um debilitamento de /s/ em etapa de aspiração majoritária.Aponta algumas
assimilações do segmento (provavelmente a velarização) que podem estendese
até a elisão.
Ana Maria Carvalho (2006) em seus estudos, afirma que a realização aspirada
do segmento /s/ foi eleita como variante de prestígio pela classe mais alta de
Rivera. A realização plena sofreu estigmatização durante muito tempo, o que
teria causado a maior difusão da variante aspirada. Assim mesmo, a realização
plena ainda é dominante em todos os outros grupos sociais e aparece também
na classe alta.
Vásquez (1953) diz que a realização plena de /s/ em posição implosiva é
contrária à norma do sistema fônico uruguaio, que teria um caráter estilemático
e que a realização do segmento nesse contexto revelaria o caráter estrangeiro
do falante. Afirma que nas regiões limítrofes com o Brasil o segmento /s/ tem
realização plena [s] e que nas demais regiões do país tal realização
denunciaria a origem fronteiriça do falante.
4. Meios e Métodos
O método de trabalho consistiu em entrevista de fala livre feitas a 24
informantes pertencentes a grupos pré-estabelecidos na cidade de Rivera. As
entrevistas foram feitas nos dias 11,12 e 13 de julho de 2007, no perímetro
central da cidade e têm duração de 10 a 20 minutos.
Foram seguidas as propostas de Fernando Tarallo (1987) y Eva Lakatos (2006)
para compor a pesquisa. Para fazer as gravações, foi usado um gravador Sony
TCM-200DV e fitas K7 TDK.
4.1.
Os Informantes.
A amostra está constituída por 24 informantes elegidos por 3 fatores: idade,
escolaridade e níveis de contato com o português.Todos são riverenses natos
e falantes de espanhol como L1.
a) Idade: de 16 até 29 anos, de 30 até 44 anos e 45 até 60 anos. Totaliza 8
informantes em cada grupo.
b) Escolaridade: baixa para quem estudou até a primária e alta para quem
estudou até a terciária. Totaliza 12 informantes em cada grupo
c) Níveis do contato com o português: monolíngüe para quem fala somente
espanhol e bilíngüe para quem fala espanhol L1 e português.Totaliza 12
informantes em cada grupo.
Tabela de realizações de /s/ distintas das rioplatenses encontradas na
amostra
Grupo por idade Monolin/ Baixa Monoling/ Alta Bilin/Baixa Biling/Alta
G1
-16 até29 anos [s] [z] [s] [s] [z] [s]
G2
-30 até 44 anos [s] [s] [s] [z] [s] [z]
G3
-45 até 60 anos [s] [z] [s] [s] [z] [s]
Total
24 informantes
MB=monolingüe baixa MA=monolingüe alta BB=bilingüe baixa BB=bilingüe alta
5.
Análise dos resultados
O grupo que mais usou a realização plena de /s/ é o G2, seguido do G1 e G3;
A realização plena de /s/ foi encontrada em todos em MA, MB. BA e BB.
G3BB,G1BB,G3MB e G1MA;
fonológicos distintos dos que aparecem na variante rioplatense.Isto talvez seja
explicado pela dupla influência do português (DPU e português brasileiro) que
existe na cidade.O contato dos riverenses com o DPU (Dialeto Português do
Uruguai) se dá em âmbito familiar e o intenso contato dos riverenses com o
português do Brasil se dá por meio do comércio, televisão, rádios etc...
A sonorização de /s/ foi encontrada nos grupos G2BB, G2BA,Na amostra foram encontradas realizações plenas de /s/ em contextos
variante rio-platense.A aspiração apareceu mais no grupo de escolaridade alta;
A aspiração de /s/ na amostra de Rivera, tende a aparecer menos do que na
plena [s] é dominante;
A aspiração de /s/ aparece menos no grupo dos bilíngües, pois, a realização
baixa;
Apesar de ser pouca, a elisão aparece nos grupos G1 e G3 de escolaridade
A sonorização não foi encontrada no grupo MA.G2MB, G1BA e G3BA;
6. Conclusões
Na amostra estudada foram encontradas realizações de /s/ diferentes das rioplantenses,
isto talvez assinale para uma zona dialetal do espanhol dentro do
Uruguai.No entanto, para caracterizar
sobre o fenômeno.
A influência do português sobre o espanhol da fronteira uruguaia está
caracterizada com a realização de plena de /s/ que se mantém ainda que
apareça em sílaba travada.A realização aspirada de /s/ em sílaba implosiva
está difundida em toda a região do Rio da Prata.
A realização plena [s] foi encontrada em todos os grupos estudados.Deve
destacar-se que a presença da realização plena em especial no grupo
monolíngüe alta, pois, este exerce influência - no que se refere a prestígio
lingüístico - dentro da comunidade de falantes de espanhol.E, sem dúvida o
grupo MA é o que mais sofreu influência da aspiração de /s/ proveniente de
Montevidéu.
O uso da oposição /s/ - /z/ também demonstra uma grande influência do
português porque o espanhol perdeu essa oposição há muito tempo.Porém,o
uso desta oposição está sujeito a regra variável.
Entre os monolígües do grupo G2 foi encontrada a realização sonorizada [z],
isto chama a atenção porque este es um grupo de mobilidade social que
também contribui para consolidar e prestigiar as variantes de um dialeto.
A influência do português sobre o espanhol na realização do segmento /s/ se
confirmou ao longo deste estudo.
-la seriam necessários mais estudos
Referências Bibliográficas
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diecinueve países.
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ELIZINCÍN,A.
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LAKATOS, Eva Maria e MARCONI, Marina.
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QUILIS,A. y FERNANDEZ, J. A.
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Libros.S.L, 2000
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Por quê os brasileiros devem aprender espanhol

Por que os brasileiros devem aprender espanhol?
João Sedycias (UFPE)

A crescente globalização da economia mundial e as privatizações que têm ocorrido na América Latina nos últimos anos são um alerta para que profissionais brasileiros e hispano-americanos de todas as áreas procurem adquirir o mais rápido possível a capacidade de comunicação em diferentes idiomas. No caso específico do Brasil, com o advento do Mercosul, aprender espanhol deixou de ser um luxo intelectual para se tornar praticamente uma emergência. Além do Mercosul, que já é uma realidade, temos ao longo de toda nossa fronteira um enorme mercado, tanto do ponto de vista comercial como cultural. Porém, esse mercado não fala o nosso idioma. Com a exceção de três pequenos enclaves não-hispânicos no extremo norte do continente (a Guiana, o Suriname e a Guiana Francesa), todos os outros países desse mercado falam espanhol. Mais além da América do Sul, temos a América Central e o México, onde também predomina o idioma espanhol. Se quisermos, portanto, interagir devidamente com esse gigantesco mercado, teremos que aprender a língua e cultura dos nossos vizinhos hispano-americanos.
Todos os indicadores atuais nos levam a crer que o inglês continuará ocupando o lugar privilegiado que conquistou já há algum tempo como principal idioma internacional de comunicação. Salvo alguma mudança radical na atual ordem mundial, essa lingua franca seguirá sendo a ferramenta de comunicação internacional preferida nas áreas de comércio, economia e negócios. Na Alemanha, por exemplo, os dirigentes de grandes empresas tais como a Siemens, Hoechst e Deustche Telekom, as quais têm uma atuação internacional bastante acentuada, fizeram recentemente algo revolucionário. Determinaram que seria melhor para suas respectivas companhias se todos – tanto os executivos como os funcionários subalternos – usassem o inglês para se comunicarem entre si. Por isso, decidiram que no futuro vão adotar essa língua não somente para todas as comunicações internas e externas da companhia mas também nas reuniões dos seus executivos, mesmo quando haja apenas alemães presentes! Essa atitude inusitada por parte dos líderes empresariais alemães reflete um extraordinário grau de sentido prático, esclarecimento e compreensão das forças que estão moldando o nosso futuro, pois dá as devidas condições aos funcionários dessas empresas de competirem com o resto do mundo de igual para igual.
A situação atual do espanhol não é muito diferente da do inglês. A posição que a língua espanhola ocupa no mundo hoje é de tal importância que quem decidir ignorá-la não poderá fazê-lo sem correr o risco de perder muitas oportunidades de cunho comercial, econômico, cultural, acadêmico ou pessoal. O espanhol é de suma relevância para a comunidade mundial da atualidade, não somente pelo fato de ser a língua mãe de mais de 332 milhões de pessoas, na sua maioria concentradas em dois dos mais importantes continentes da nossa era (Europa e América), mas também por desempenhar um papel crucial em vários aspectos do mercado mundial contemporâneo. Depois do inglês, o espanhol é a segunda língua mais usada no comércio internacional, especialmente no eixo que liga a América do Norte, Central e do Sul.
Até alguns anos, não era preciso mais do que um conhecimento rudimentar de uma lingua franca, tal como o inglês, para se comprar e vender entre países de línguas e culturas diferentes. Contrariando esse modelo, a atual globalização da economia mundial tem requerido que os participantes do comércio internacional estejam melhor preparados para poder competir com mais eficácia e rapidez, podendo assim oferecer produtos mais diversos e preços mais competitivos aos consumidores. A comunicação entre mercados diferentes já não depende apenas de uma lingua franca, mas exige que o vendedor de bens ou o prestador de serviços tenha conhecimento da língua e da cultura do seu comprador ou cliente em potencial.
No caso da América Latina, um dos mercados mais promissores do novo século, o português e o espanhol representam os dois meios de comunicação mais importantes para esse comércio global. Quem quiser comprar, certamente poderá fazê-lo usando sua língua nativa (o vendedor se encarregará de aprender a língua de quem tiver dinheiro para adquirir seus produtos). Por outro lado, quem quiser vender, terá que fazê-lo com um bom conhecimento da língua e da cultura do comprador. É com essa filosofia em mente que todas as escolas de MIB (Master’s in International Business, Mestrado em Negócios Internacionais) dos Estados Unidos exigem que seus alunos tenham um conhecimento básico de pelo menos uma língua estrangeira, que geralmente é o espanhol.
Dez razões por que os brasileiros devem aprender espanhol:
Antes de enumerar as muitas razões por que os brasileiros devem aprender espanhol, gostaria de tecer algumas considerações sobre duas premissas básicas que são raramente mencionadas (talvez por serem óbvias e por geralmente enfocarmos a presente questão do ponto de vista das particularidades do idioma em questão) quando discutimos a importância, para o indivíduo, em aprender alguma língua estrangeira específica. As premissas descritas abaixo remetem ao ponto de vista do aluno (e por esta razão são chamadas neste artigo de “premissas internas”), cuja vida pessoal e profissional geralmente é afetada de forma positiva e permanente com o aprendizado de uma língua estrangeira:
A.     Enriquecimento profissional. A maioria das pessoas adultas que começam a aprender uma língua estrangeira geralmente tem como objetivo principal ampliar os seus horizontes profissionais. Esses indivíduos chegam à escola de línguas perfeitamente cientes de que a aprendizagem de um segundo idioma vai enriquecer o processo de aperfeiçoamento profissional deles e pode até chegar a contribuir para a qualificação ou capacitação dos mesmos nas suas respectivas carreiras. O conhecimento de uma língua estrangeira pode fazer uma diferença decisiva na hora da contratação ou, mais tarde, no momento de disputar uma promoção dentro de uma empresa. Portanto, a conexão entre o domínio de um idioma estrangeiro e o avanço na carreira profissional se torna cada vez mais tangível e óbvia com a crescente globalização da economia mundial.
B.     Enriquecimento pessoal. A maioria dos alunos de língua estrangeira termina tendo sua vida intelectual, acadêmica e pessoal enriquecida de uma forma ou de outra com o aprendizado de um segundo idioma. Isso acontece mesmo com estudantes bastantes jovens, que podem até nem gostar de assistir às aulas, preferindo passar seu tempo livre em outras atividades. Só no futuro esses jovens compreenderão realmente o valor de poder ver o mundo por um prisma lingüístico diferente daquele de sua língua nativa. Além de um universo completamente novo em termos de literatura, filosofia, historiografia, folclore, música, filme, cultura popular, etc. que vai se abrir com cada idioma novo que aprendermos, não devemos esquecer uma das verdade mais simples sobre as línguas estrangeiras: quando estudamos um segundo idioma, não aprendemos apenas a descrever a nossa realidade convencional com sons novos e exóticos; aprendemos também a criar uma realidade completamente nova. Por isso, a título de exemplo, podemos dizer que o mesmo copo que cai acidentalmente das nossas mãos adquire, quase de forma mágica, duas dimensões ontológicas, duas realidades distintas, em espanhol e inglês. A afirmação em inglês “I dropped the glass” (eu deixei o copo cair) oferece uma visão do mundo, uma construção da realidade, muito diferente da versão em espanhol “se me cayó el vaso” (o copo caiu, acidentalmente ou devido a ação de uma terceira entidade não identificada, da minha mão e isso me afetou, i.e., eu sofri as conseqüências dessa ação).
Tentei mostrar acima que o aprendizado de uma língua estrangeira pode ter conseqüências muito positivas no desenvolvimento profissional e na vida pessoal de um indivíduo (premissas internas). A seguir, com referência específica ao espanhol, gostaria de oferecer dez razões por que os brasileiros devem aprender esta língua (premissas externas, i.e., razões que remetem, não ao ponto de vista do aluno, mas às particularidades da língua estrangeira em questão):
As dez razões:
1.       Língua mundial. O espanhol é umas das mais importantes línguas mundiais da atualidade. É a segunda língua nativa mais falada do mundo. Mais de 332 milhões de pessoas falam espanhol como primeira língua. Perde em número de falantes nativos apenas para o chinês (mandarim), cuja projeção internacional, entretanto, não pode ser comparada com uma língua “mundial” como o inglês, espanhol ou francês. Uma curiosidade: há mais falantes de espanhol como língua nativa do que de inglês, que conta apenas com 322 milhões de falantes nativos.
2.       Língua oficial de muitos países. O espanhol é a língua oficial de 21 países.
3.       Importância internacional. O espanhol é, depois do inglês, a segunda língua mundial como veículo de comunicação internacional, especialmente no comércio, e a terceira língua internacional de política, diplomacia, economia e cultura, depois do inglês e do francês.
4.       Muito popular como segunda língua. Aproximadamente 100 milhões de pessoas falam espanhol como segunda língua. Nos Estados Unidos e Canadá, o espanhol é a língua estrangeira mais popular e portanto a mais ensinada nas universidades e nas escolas primárias e secundárias.
5.       O Mercosul. Pela primeira vez na sua história, a América Latina está não somente vivenciando um dos mais altos graus de crescimento econômico, tecnológico e industrial como celebra também o primeiro acordo comercial de âmbito continental. O Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai acabam de assinar um acordo histórico, que efetivamente transforma esses quatro países em uma única zona comercial e econômica. O espanhol é a língua oficial de três desses países e desempenhará um papel de suma importância para qualquer indivíduo ou companhia que queira ter acesso ao maior mercado da América do Sul. Se quisermos comprar algo dos nossos vizinhos sul-americanos, poderemos certamente usar o português. Porém, se quisermos que eles comprem os nossos produtos, teremos que falar a língua deles (o espanhol).
6.       Língua dos nossos vizinhos. Todos os países que fazem fronteira com o Brasil têm o espanhol como língua oficial, com a exceção apenas da Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Isso é importante não somente do ponto de vista econômico e comercial (e.g., Mercosul) como também cultural e até pessoal, já que compartilhamos culturas muito similares. Afinal de contas, somos todos latinos, íbero-americanos e produtos de culturas cujo Weltanschauung difere em muito pouco. Mesmo se não tivéssemos tanto em comum lingüística e culturalmente com os nossos irmãos hispano-americanos, o simples fato de países tais como o Chile e a Colômbia terem na sua literatura alguns dos melhores escritores que o mundo já produziu, muitos deles ganhadores do Prêmio Nobel de literatura – tais como Gabriela Mistral, Pablo Neruda e Gabriel García Márquez, entre outros – já seria motivo suficiente para termos interesse em aprender a língua em que suas obras foram escritas. O fato de sermos vizinhos é mais um motivo para aprendermos sua língua e nos familiarizarmos com sua cultura.
7.       Viagens para Espanha ou Hispano-América. Um conhecimento razoável de espanhol fará uma grande diferença em qualquer viagem que um brasileiro faça a um país de língua espanhola. Poderemos aproveitar mais do país que visitarmos e teremos mais oportunidades de estabelecer amizades ou mesmo relações mais formais (intercâmbios econômicos, acadêmicos, científicos, etc.) se pudermos nos comunicar na língua dos nossos anfitriões. Jamais devemos pensar que, simplesmente porque sabemos português, podemos compreender espanhol sem maiores problemas. Se isso fosse verdade, as seguintes frases seriam perfeitamente compreensíveis para a grande maioria dos brasileiros:
·         ¿Tiene Ud. tijeras para zurdo?
·         ¡Mira, qué bonitos son los cachorros del oso!
·         A mí no me gusta el berro. Prefiero la lechuga o el perejil.
·         La maja azafata me enseñó la butaca morada en el escaparate.
·         Este zagal es el chirote recazo quien arrestó el presunto asesino.
·         El profesor no tiene ropa y necesita un saco nuevo para ir a la fiesta.
·         La chaparrita que lleva la zamarra garza vive en una chabola cerca del malecón.
·         Me acordé que tengo que cortar la tela para hacer americanas para los mellizos.
·         ¡Qué absurdo! Llamaron al pobre chamaco de “archiganzúa,” “faltrero” y “rapante.”
8.       Importância nos EUA. Nos Estados Unidos, o maior mercado do mundo, aproximadamente 13% da população fala espanhol como primeira língua. Esse grande número de falantes de espanhol representa um gigantesco mercado de consumidores, com um poder aquisitivo de mais de 220 bilhões de dólares, algo que as grandes companhias de marketing dos Estados Unidos já se deram conta há algum tempo. Isso explica o fato de vermos regularmente na mídia norte-americana comerciais direcionados especificamente para esse segmento da população. Se nós brasileiros quisermos participar desse enorme mercado, colocando nele produtos oriundos do Brasil, teremos não somente que ter algum conhecimento de inglês mas também um bom comando de espanhol.
9.       O português e o espanhol são línguas irmãs. Pelo fato de se derivarem da mesma língua, o latim vulgar, o português e o espanhol têm muito em comum, muito mais do que, por exemplo, o português e o inglês. Essa familiaridade ajuda muito na aprendizagem do espanhol por parte dos falantes do português brasileiro. Em realidade, é mais fácil para um brasileiro aprender espanhol do que um falante de espanhol aprender português. Isso é, em parte, devido ao fato de o português, por um lado, ter mais sons vocálicos (12) do que o espanhol (apenas 5) e, por outro, na sua evolução lingüística ter eliminado certos sons consonantais que ainda figuram no espanhol. Exemplos desses sons são o “n” e o “l” intervocálicos em palavras como “cor” e “ter” (“color” e “tener” respectivamente em espanhol).
Com respeito às vogais, existe no inventário fonológico do português sons que não figuram no espanhol e que, por conseguinte, torna a sua compreensão mais difícil para uma pessoa de língua espanhola. Além dos sons vocálicos nasais, que não existem no espanhol, o português tem variações dos fonemas /o/ e /e/ que apresentam problemas especiais para o hispano-falante. Via de regra, este último não compreenderia, por exemplo, a diferença sutil entre as palavras “avô” e “avó,” “seu” e “céu,” ou “meu” e “mel.”
Com respeito aos sons consonontais eliminados na evolução do português, mesmo um brasileiro com pouco conhecimento de espanhol poderá, sem muita dificuldade, deduzir que o termo castelhano “color” (relacionado ao vocábulo português “colorir”) é apenas uma forma mais “longa,” talvez mais arcaica, da palavra portuguesa “cor.” Essa palavra em ambos idiomas se deriva do termo “colore” em latim. Eliminando o “l” da palavra espanhola “color,” que do ponto de vista do falante de português, neste ambiente fonético específico, não representa mais do que um som supérfluo, se chega ao termo correto no idioma lusitano. Usando a mesma analogia, o falante de português poderá chegar também ao significado correto da palavra espanhola “tener,” simplesmente eliminando o “n,” que há muito tempo deixou de figurar no vocábulo correspondente em português. Assim como o termo anterior, os verbos “tener” em espanhol e “ter” em português provêm da mesma palavra ancestral, o verbo “tenere” em latim. Fica claro, portanto, que o processo de eliminação de sons em certas palavras de uma dada língua para se chegar aos vocábulos equivalentes em outro idioma da mesma família é algo relativamente fácil. Porém, o contrário – i.e., para um hispano-falante “deduzir” que as palavras em português “ter” e “cor” significam, respectivamente, “tener” e “color” em espanhol – se torna mais difícil. Afinal, é pouco provável que o falante de espanhol saiba que fonema, ou combinação de fonemas, adicionar aos termos portugueses em questão para chegar às palavras corretas na sua língua mãe.
Essa “hierarquia de habilidades de compreensão” ilustra um aspecto básico da fonética de muitas famílias lingüísticas. Sabemos que dentro de um mesmo grupo filológico, uma língua que tenha se desenvolvido mais e sofrido um maior número de transformações e, principalmente, reduções é sempre mais difícil de compreender do que uma que tenha permanecido fonologicamente mais próxima da origem. Daí a razão – do ponto de vista do aprendiz falante de português – de o espanhol e o italiano serem mais fáceis do que o francês. Daí, também, a razão de ser mais fácil para um brasileiro aprender espanhol do que um hispano-falante aprender português.
1.              Beleza e romance. Embora (ainda) não haja provas concretas, todos sabemos que o espanhol faz bem à alma e ao coração, principalmente daqueles que estão apaixonados. O espanhol é uma das línguas mais bonitas, melodiosas e românticas que o mundo já teve a felicidade de ouvir. Além de suas óbvias qualidades intrínsecas, temos à nossa disposição em espanhol uma vasta e maravilhosa literatura – as obras do Siglo de Oro, por exemplo – sobre os assuntos mais variados, profundos e refinados do sentimento humano. Do lado de cá do Atlântico, temos os inesquecíveis boleros cubanos e mexicanos que nos fazem sonhar com um tempo mais romântico e bonito... Que outra língua, senão o espanhol, poderia dizer “eu te amo” desta forma?: “Mujer, si puedes tú con Dios hablar, pregúntale si yo alguna vez te he dejado de adorar.”
Notas
1 Esta parte do presente artigo (“Turismo: Viagens de turistas hispanófonos ao Brasil”) contou com a participação de Maressa Farias Rocha, aluna de graduação nas áreas de espanhol e japonês no Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília.
http://home.yawl.com.br/hp/sedycias/porqueesp.htm (reproduzido com permissão do autor) .